As Palavras Fugiram: Contos de Quinta #17

Hoje o conto é da autora Julia Molinari, este e outros contos podem ser encontrados aqui: Contos Nunca Contados. E nas próximas semanas vamos poder conhecer outros contos da autora :)


A estrela cadente que não queria cair.


Desde sempre foi assim. As estrelas cadentes eram criadas, e caiam na terra, realizando os desejos que as criancinhas faziam a elas.

No entanto, um dia nasceu uma estrela diferente. Fisicamente, era igual às outras, bonita e brilhante, com uma cauda longa. Mas a nova estrela, ao ouvir que tinha que cair na terra, se recusou com todas as forças.

─ Por que tenho que cair? ─ Questionava ela.

─ Por que tem, oras. ─ respondiam os anjos que cuidavam das estrelas.

─ Mas, tem que ter um motivo!

─ Não tem. Estrelas cadentes são feitas para cair. Não questione isso e volte para a fila das que ainda não foram para a terra.

─ Mas eu não quero cair!

Ninguém a ouvia. A jovem estrela foi obrigada a acompanhar as outras que seguiam por uma enorme fila, esperando sua vez para descer à terra. Observou as suas companheiras, que aguardavam silenciosas, pacientes, sem nada contestar.

Isso começou a irritá-la. Sentiu-se inquieta. Por que todas elas concordavam com aquilo? Nenhuma tinha medo de cair? Será que só ela era a estranha, que se recusava a fazer aquilo?

Puxou conversa com uma delas.

─ Você não tem medo? ─ Sussurrou curiosa.

─ Medo de quê?

─ De cair!

─ Por que eu teria medo? Eu nasci pra fazer isso.

─ Mas, e se você não quiser fazer?

─ Não é questão de querer. Eu fui criada para isso, e ponto final.

─ Mas...

A fila andou e a outra estrela deixou-a lá, ignorada. Não daria a atenção para alguém tão estranha.

No entanto, a jovem estrela não se aquietou. Cada vez mais ficava confusa e aborrecida. Por que todos diziam apenas a mesma coisa? Seria esse seu destino, nascer para cair? Não podia ser outra coisa?

Tentou falar com outras estrelas, mas não conseguiu resultados. Todas davam as mesmas respostas curtas e objetivas, ou simplesmente a ignoravam. A fila continuou a andar. Logo seria a sua vez de pular do céu. Ela começou a desesperar-se.

─ Alguém, por favor, me diga se é esse o sentido da minha vida!

Ninguém dizia. Só olhavam torto para ela. Que estela mais barulhenta! Recusava-se a esperar quieta para realizar a sua função.

Agora ela gritava. Começou a andar inquieta, bagunçando a fila, questionando todas as estrelas que via pela frente e, ao não conseguir respostas, afobava-se mais ainda.

Alguém pediu ajuda. Vieram os anjos, tentaram controlar ela. Nada feito, ela se debatia num frenesi doentio, gritando que não queria cair, não queria cair, não queria cair.

Os anjos estavam perplexos. Nunca, em toda a história das estrelas cadentes, uma se recusara a fazer seu trabalho. Será que Deus tinha falhado ao criar esta? Não, ele nunca falhava. Seria obra de um demônio? Não, eles não ganhariam nada com isso. Provavelmente ela era uma dessas raridades inconvenientes que surgem de vez em quanto, para contestar as regras que já existem.

Pediram para as outras estrelas se afastarem. Nesses casos, o jeito é se livrar do mal pela raiz, e de preferência rapidamente; outras podiam se revoltar também, pela influencia da primeira. Chegaram à ponta da nuvem, as outras estrelas com os olhos arregalados os observando. Ela ainda se debatia.

No entanto, não pôde resistir. Os anjos eram mais fortes que ela. Jogaram-na lá do alto, e depois mandaram as outras se organizarem novamente, e fingir que nada tinha acontecido. Era apenas um contra tempo.

A estrela diferente começou a cair, e cair, e cair, e não parava mais. E enquanto caía, chorava de pavor, de tristeza e de impotência. Pois tinha sido como todas as outras, seu destino fora o mesmo, e sua vida não fizera sentido.

Tudo voltou ao normal, a fila tornou a andar normalmente. Em pouco tempo, todos se esqueceram da estrela que não queria cair.

Porém, a criança que a viu naquela noite, notou algo estranho. Um brilho singular... Diferente. Sentiu-se sortuda, era uma estrela cadente rara a que vira! Fez um pedido, as mãos juntas em posição de oração, esperançosa.

Nunca mais a jovem estrela foi vista.


E aí, o que acharam?
Contos de quinta é um espaço para divulgação de contos, poesias, textos em geral de blogueiros e escritores, (talvez um dia eu publique um conto meu, quem sabe? rsrs), Se você quiser ver seu texto publicado aqui é só me contatar por email clicando aqui ou enviando um email direto para aspalavrasfugiram@hotmail.com

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