As Palavras Fugiram: Contos de Quinta #20

Hoje o conto é da autora Julia Molinari, escrito com Kaká e Vitor Hugo. Este e outros contos podem ser encontrados aqui: Contos Nunca Contados. E nas próximas semanas vamos poder conhecer outros contos da autora :)
O conto de hoje é um dos meus favoritos!


Devaneios de um número


E lá estava ele, confinado naquela sala sombria e vazia, sem portas ou janelas. Sem noção do tempo, sem noção da vida. Nem mesmo noção de sua própria existência. Mas como teria ido parar lá dentro? Era simplesmente um cubo perfeito de... Paredes acolchoadas?

Ah, não se lembrava mais. Na verdade, nem queria se lembrar. Aquele lugar lhe dava uma sensação aconchegante. Uma sensação que ele sentia nunca ter experimentado antes...

Justamente quando tudo começava a fazer sentido o despertador tocou, lembrando-o mais uma vez da realidade. Desligou a maquina infernal com uma pancada, e se levantou da cama. Que sonho mais esquisito... Enfim, hora de voltar à sua rotina de sempre.

Entretanto, ao descer da cama notou algo estranho. Levou alguns segundos até perceber que ainda não havia atingido o solo. Na verdade, ainda estava em queda livre.

Será que ainda estava sonhando? Inopnadamente tudo se tornou escuro. E caia, caia, como se não houvesse fim para aquele buraco. Devia desesperar-se, mas na verdade estava calmo. Sentiu-se como a jovem Alice, que também despencara assim. Será que finalmente surgiria uma aventura para tirá-lo de sua rotina maçante?

Tentou prestar mais atenção à paisagem que o cercava, mas era difícil de identificar algo a uma velocidade tão alta. Foi então que pensou como iria conseguir parar, se estava realmente tão rápido.

Afinal, aquilo devia ter um fim - nada dura pra sempre. O que o aguardava no fundo do poço? Fisicamente falando, ele não estava numa situação favorável. Finalmente chegara o seu fim? Realmente era um tanto quanto deprimente acabar daquela maneira, após... Cair da cama? Algo estava realmente errado ali...

Dizem que quando você está prestes a morrer, sua vida passa diante de seus olhos. Bom, não foi o caso dele. A única coisa que insistiu em se lembrar é que fora uma existência patética, e que morreria de uma forma mais patética ainda.

Ele ainda não poderia morrer, tinha tanto por fazer! Tantas pessoas com quem conversar, tantos lugares para conhecer, tantos feitos grandiosos no seu futuro... Foi nesse momento que ele percebeu: não estava mais caindo.

Estava parado, numa sala vazia, de paredes brancas. Não havia nada nela, a não ser uma porta de madeira desgastada e fechada, e uma mesa de centro com um vaso de flores em cima. Dentro do vaso, um bilhete escrito em papel azul.

O bilhete dizia: "Olá M., você passou sua vida toda se escondendo de sua própria essência. Agora está preso dentro em sua própria mente. Você será capaz de eliminar o seu antigo "eu"? Capaz de esquecer tudo aquilo que foi, a fim de se tornar um ser pleno? Boa sorte."

Ele leu e releu o bilhete, tentando entender o que a mensagem queria dizer. Sua cabeça doía, disparos de pensamentos passavam por ele e logo desapareciam, sem que ele sequer pudesse assimilá-los. Amassou o papel e enfiou no bolso. A única coisa que lhe restava era a porta.

Seguiu com passos incertos, temendo o que estava prestes a encontrar. Aliás, quem teria feito aquilo com ele? Nada mais fazia sentido. De um só ímpeto, abriu a porta, apenas para encontrar outro aposento inteiramente branco. O completo vazio.

Sua mão não estava mais na maçaneta. A sala vazia desaparecera, tudo sumira. O ambiente se fundia como num sonho, derretia-se como magma quente, mas o homem era desprovido dessas sensações. Encontrava-se perdido no que julgava ser o nada.

Ele, já desprovido de quase todas as diárias tentações humanas, refletiu sobre a curiosidade. Se ela valia a pena, ou como foi parar ali, nele mesmo. Sentia indiferença a tudo aquilo, como se derretesse junto, de modo que nem percebesse as coisas mudarem. Pensou em sentar, mas nem sabia se havia algum tipo de chão. Mesmo assim, permanecia ainda seguro, atento.

Foi então que ouviu uma voz. Não, não uma voz, mas talvez um grito frustrado... Ou quem sabe um sussurro desesperado, até mesmo um chamado desconsolado, era difícil de determinar. Queria andar, mas movimentava-se como um fluido escorrendo na direção da fonte.

A voz... A voz o agonizava. Queria se aproximar, no entanto vagava perdido. Sentia reconhecer aquela voz... Cheia de interpretações, profundidade e segredos... A voz... A voz dele mesmo.

Voz... vó? Não sabia interpretar a própria mesmo, nunca se propusera a isso. Se os sinais seriam letras, sílabas, desenhos ou imagens, não sabia ainda.. Estar perdido dentro de si era algo novo para ele, não distinguia por o que procurar.

Aquele som recorrente, similar à sua própria voz, foi transformando-se. Como se copiasse um rádio correndo entre frequências perdidas, conseguiu ouvir vozes de bebê, menino, rapaz, moço e homem, todas conhecidas. Só não sabia se iria ouvir, àquela hora ou depois, uma voz de senhor, grave e serena.

Todavia, naquele momento todas as vozes se calaram. E diante de seus olhos, começa a surgir um devaneio, uma sombra, um homem. Ele. Mas o que diabos...? Não podia simplesmente acreditar naquilo. Estendeu o braço, numa tentativa fútil de crer que aquilo não passava de uma ilusória projeção. Fútil, pois ao encostar-se àquele corpo deparou-se com um ser sólido, carne e osso.

Via a ele mesmo. O que ele realmente era. Homem duro, sem ambições, vivendo sua vida com honra e dignidade. Tornara-se tão... Do ponto de vista da vida, homem bom, trabalhador, justo. No entanto, uma voz tornou a ecoar... A voz da sua infância. E relembrou-se de um passado não tão distante, mas apagado. Tornar-se aquilo não era o que sempre desejara.

Aquela curiosidade, que sempre pareceu uma mania de criança, voltou a assombrar-lhe. Não que fosse um rebelde sem causa, ou muito menos um ingrato, mas desejava um gostinho que, cada vez transparente, parecia querer desaparecer...

Sempre equilibrou-se, teso, em uma corda fina e firme, que por mais instável e traiçoeira fosse, não o deixava cair para fora daquela realidade, que a própria corda trabalhara tanto para construir. A própria vida programou-lhe uma maldição de mesmice, insegurança, medo. Ele nunca teve a oportunidade de esticar o Destino como se o mesmo fosse um elástico, que ia e voltava, sem parar nem estourar.

Estava decidido. Era hora de finalmente mudar, conhecer a si próprio e os limites do mundo! Era hora de... Acordar. Maldito despertador. E pensar que estava no meio de um sonho tão bom... Se ao menos conseguisse lembrar-se dele, certamente seu dia seria incrivelmente melhor.

Enfim, seguiu da cama para a cozinha, a fim de tomar seu café da manhã. Céus, ele precisava lembrar-se de tirar aquela maldita bruxa do meio da sala. Ela realmente estava criando um caos transformando todos os seus móveis em bichinhos de pelúcia.

Pegou uma xícara de café, um pão integral, lançou uma cara feia para a bruxa, e sentou-se na cadeira acolchoada da cozinha. A mesa desaparecera, e em seu lugar estava uma pelúcia de cachorro. Ele pegou o animal inanimado na mão, olhando seus pelos brancos e o lenço azul no pescoço. Aquele azul o fez pensar no sonho, mas ainda não conseguia relembrar o que acontecera. Jogou o brinquedo de lado, gritou com a bruxa e se preparou para sair para o trabalho.

Saindo ao ar livre, pôs-se a pensar. Cruzou os braços, enxugou a testa... Seu carro, pela 45º vez, havia tornado-se um cheeseburguer. Sim, um cheeseburguer. Não um hambúrguer motorizado, com painel personalizado e câmbio de espátula, igual o do Bob Esponja, mas sim um grande, apetitoso e terrível lanche, cheio de calorias. Pensou no sacrifício constante que era comer o fedido e cretino pão integral, pensou na barriguinha que ia e vinha... Nunca havia comido aquele sanduíche que aparecia vez ou outra no lugar de seu carro, mas não poderia arriscar morrer sem tê-lo feito.

Olhou para os lados, e decidiu favorecer o réu. Botou o brutal lanche apoiado em suas costas, amarrado com cordas de escalada e mosquetões de segurança. Montou na bicicleta cor-de-rosa rebaixada e com luz xennon 650, e dirigiu-se a um dia que poderia parecer normal, mas talvez ainda guardasse uma ou duas gramas de surpresa.

Ele seguia normalmente o caminho para o trabalho quando deparou-se com um congestionamento de unicórnios não-alados. Sem dúvida esse era o pior tipo de congestionamento possível. Claro que o de guerreiras anãs era terrível, o de amebas pegajosas era nojento, mas nada se comparava aos malditos unicórnios não-alados.

Não bastasse a frustração de nascer como sendo um dos seres mais gays e coloridos da natureza, ainda tinha de suportar as chacotas e provocações dos seus primos alados. Tudo isso se combinava na criação de seres extremamente rabugentos e coloridos, prestes a desferirem coices a qualquer momento.

Mas que inferno! Parou a bicicleta para esperar o congestionamento. Os animais relinchavam irritantemente, amolando o homem. Porém um barulho ainda mais pavoroso foi ouvido vindo de trás dele.

A bruxa que outrora brincava com seus moveis, agora galopava no meio da rua, montada num enorme urso polar felpudo - e de pelúcia, vale ressaltar - e atirando raios mágicos da ponta de uma varinha que ela provavelmente roubara de um dos filmes do Harry Potter. Transformava os prédios em bonecas de pano, os carros em besouros macios e cheios de algodão no interior, e os unicórnios em... Unicórnios de pelúcia, obvio!

“Bom, pelo menos esses unicórnios vão parar de cagar esse glitter fétido e horroroso" pensou ele. Olhou no espelho da "bike" e constatou que a bruxa vinha em sua direção. Ficou pensando como aquela xexelenta duma feiticeira conseguia tantos itens mágicos, sendo eles de best-sellers ou não. Parou a bicicleta, ligou o xennon 650, tirou as caixas de som da maleta, e fez cara de malaco. Se toda aquela zona catastrófica não ia deixá-lo chegar ao trabalho, ele iria curtir seu cheeseburguer com estilo.

A bruxa passou rasante, fazendo uns gergelins gigantes caírem no chão. Ele conseguiu gritar ainda um "vai-te a merda, ô fí de cranco", antes que ela desaparecesse na desordem. Prendeu a bicicleta num piercing de mamilo do Monstro do Lago Ness que tinha desmaiado no calor do asfalto. Apoiou-se no bicho, e começou a comer o sanduíche. Como metade da rua estava cheia de pelúcias, e a outra metade de gente morrendo ao cair no chão após seus prédios virarem bonecas, ele teria tempo o suficiente para terminar todas aquelas.

Podia sentir cada mordida sendo convertida em entupimentos no seu sistema circulatório, mas realmente valia à pena. Refeito após aquela bomba gordurosa, decidiu prosseguir para o trabalho. Certamente a maldita bruxa ia deixar só o escritório dele intacto no meio de um mar de pelúcias.

Entretanto, logo após recuperar sua bicicleta do piercing, começou a sentir um leve desconforto no peito. De fato, um belo desconforto. Ele realmente não teria como saber, mas o sanduíche que comera estava começando a causar-lhe um infarto. Fulminante. Tão fulminante que antes mesmo de atingir o solo ele já estava morto. Ou melhor, estaria, se tudo não passasse de... Um sonho. Levantou-se assustado e olhou ao redor. Três e vinte e sete da manhã, marcava o relógio na parede. Como sempre marcou, marca e marcará.

O tempo parara, de acordo com seu relógio, mas apenas porque ele tinha preguiça de trocar as pilhas. E o sonho se fora, desapareceram as pelúcias fofinhas, o sanduiche deliciosamente gorduroso, os cocôs com purpurina, a bruxa ladra de acessórios de filmes, o monstro do lago Ness rebelde que usava piercing, as bonecas-de-pano-predios, e os devaneios absurdos. Voltara ao seu mundo normal. Talvez devesse escrever um livro sobre aquilo tudo, seria certamente um best-seller.

Best-seller... Ou até, talvez, uma trilogia? Sentou-se na borda na cama, depois de uma boa espreguiçada. Certificou-se de que aquilo também não era um sonho. Beliscou-se, pulou, ficou pelado e correu, jogou água na cara e arrancou uns pelinhos da perna. Nada. É, pois é, voltou à realidade.

Ficou pensando sobre o porquê dos sonhos. Quem sabe, era um solstício, ou até um equinócio? Nunca soube exatamente a diferença entre eles, só achava que, por alguma razão, eles mudavam alguma coisa em qualquer coisa. Lembrou-se, melancolicamente, das ânsias expostas no sonho e tomou-as como uma lição, vinda de sua própria mente. O homem, já quase velho, não portava algo que lhe agradasse, e queria deixar a curiosidade prevalecer pelo menos uma vez.

Lembrou-se então de um velho romance que ele tivera enquanto ainda era um jovem estudante. Tivera que abandoná-lo em função do trabalho, mas, quem sabe agora que sua vida estava certa eles poderiam ter mais uma chance de viverem juntos...

Foi só pensar nele, que um livro de romance surgiu diante dos seus olhos. Desbotado e amarelo, como antigamente... Exatamente um volume que ele lera! Abriu o exemplar eufórico, e percebeu que as letras não se comportavam como deviam... Elas dançavam! Lindas dançarinas rodopiando e sambando pelas páginas. Ah, como ficou encantado com elas! Aproximou o rosto do livro, e sentiu que estava mergulhando de novo, e de novo...

Acabou por cair. Caiu, caiu, cai, cai, cairá. Por onde passava, várias músicas alternavam-se. Violinos, violoncelos, violões. Tubas, clarinetes, oboés. Órgãos, pianos e até... Cabarés? Os lugares foram viajando com ele, sempre para baixo. Tumbas, castelos, palácios, cidades, campos, colinas, montanhas, mares, lagos, rios, florestas, desertos e por fim... Neve. Branca, seca, gelada. Era neve, forçando-lhe um branco incontestável, estático, sádico.

Seria aquele então o seu fim? Permanecer naquele pálido lugar nenhum até o fim dos seus dias? O desespero estava corroendo-lhe as entranhas, até que... "5508, acorde!". De onde viria aquela... "ACORDE!". Foi então que ele viu. Estava de volta a sua boa e velha sala acolchoada. E pelo tom da voz que falava com ele, era hora dos remédios.


E aí, o que acharam?
Contos de quinta é um espaço para divulgação de contos, poesias, textos em geral de blogueiros e escritores, (talvez um dia eu publique um conto meu, quem sabe? rsrs), Se você quiser ver seu texto publicado aqui é só me contatar por email clicando aqui ou enviando um email direto para aspalavrasfugiram@hotmail.com

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